segunda-feira, 6 de junho de 2011

Insônia

Passando para dar o ar da graça.... antes que pensem que desisti da dieta, acompanhe a evolução lá no outro blog....hehehehe..... BOAS NOTÍCIAS!!!!

Acabo de chegar de mais uma apresentação do Coral. Lá Centro Espírita Trabalhadores da Seara de Cristo. Foi muito emocionante.

Noite passada, foi horrível. Insônia terrível, que não me permitiu dormir antes das 2 horas....tô morta de sono.

Procurando explicações para a insônia, eis que encontro um poema de Álvaro de Campos (pseudônimo de Fernando Pessoa), que versa sobre este mal, que me persegue. Compartilho aqui com vcs.

Beijos,


Insónia (Álvaro de Campos)

Insónia Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.


Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!


Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam


— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.


Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.


Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...


E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...


Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!
Ó madrugada, tardas tanto... Vem...

Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.


A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Um comentário:

  1. Que bom que você gostou do meu poema Mude! Porém, ao contrário do que você diz, não é de Clarice Lispector. Assim como você, muita gente supõe erradamente que esse poema é de Clarice.
    Mas não é.
    No meu blog publico todas as "provas" de que sou o autor:
    1. Registro do poema Mude na Biblioteca Nacional em agosto de 2003.
    2. Livro Mude, editado pela Pandabooks, com prefácio de Antonio Abujamra.
    3. CD Filtro Solar, Pedro Bial, onde na faixa 4 o Mude foi publicado (contrato que fiz com a Sony Music). Veja interpretação original de Simone Spoladore: http://www.youtube.com/watch_popup?v=AZSdGQ-MrXY&rel=0
    4. Veja também o vídeo Mude, completo, que foi comercial da Fiat: http://www.youtube.com/watch?v=-IwFkGLRKps
    Enfim, o que o escritor mais gosta é disso mesmo: ver sua obra reconhecida -- ainda que com autoria "transferida" para Clarice Lispector...
    Espero que, mesmo agora sabendo que não é de Clarice, você mantenha o texto em seu blog. E, se puder, corrija a autoria.
    Mude,
    Mas comece devagar,
    Porque a direção é mais importante que a velocidade.
    Veja o poema na íntegra em http://www.Mude.blogspot.com
    Abraços!
    http://Facebook.com/EdsonMarquesMude
    http://twitter.com/EdsonMarques
    www.EdsonMarques.com

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